quarta-feira, abril 11, 2007

Uma opção consciente pela esterilidade

Desde que fiz 30 anos comecei a contagem regressiva pra optar seriamente pela laqueadura de trompas. Tenho bem claros na minha cabeça os motivos (e são bons motivos), sou inteligente e bem-informada e conheço todos os métodos contraceptivos existentes (bizarrices à parte rs).

Eu sou uma mulher de 31 anos que já passou por dois abortos espontâneos e uma gravidez de risco, onde passei boa parte dos nove meses tomando remédios para segurar o meu filho dentro da minha barriga (oi Gabriel!). Não pensei em partir para a esterilidade definitiva antes dos 30 anos, pois a vida sempre dá voltas, e poderia ter acontecido de eu me casar de novo e querer ter filhos. Poderia.

Gabriel agora tem oito anos e eu não gosto nem um pouco da idéia de "filho temporão". A diferença de idade me incomoda sim. Além do que, ter filho agora seria começar tudo de novo.

Cheirinho de bebê é bom, fantasiar é lindo, mas passar por todas as noites sem dormir, cólicas, doenças, febres, vacinas e todas aquelas fases em que a criança depende de você pra tudo é bem real e chato pacas.

Além disso, já basta um filho de pai ausente. Eu teria que conhecer um homem extraordinário, que eu acreditasse que jamais seria irresponsável como o pai do Gabriel se revelou, e teria de amar MUUUITO a esse homem para me submeter a mais uma gravidez de risco, pelo simples capricho de querer aumentar a prole. Dele.

Sejamos sinceros: homem assim não existe. Mesmo que existisse, eu levaria pelo menos uns 3 anos para confiar nele e topar engravidar. Aí já estaria com 34 ou 35 anos, o que esbarra em outra questão: todo mundo e a mãe deles SABE que gravidez após os 35 anos resulta em uma probabilidade muito mais ALTA de problemas congênitos no bebê. Arriscar colocar um bebê no mundo com um problema congênito é uma responsabilidade IMENSA. Eu admiro demais as mães que lutam dia após dia para educar os seus.

Some aí o fator gravidez de risco, que não custa nada repetir e repetir e repetir porque pesa muito na minha balança sim. Eu perdi dois filhos, que eu queria MUITO, MUITO ter tido. Eu não tenho estrutura mental e física para passar por um terceiro aborto espontâneo. E, confesso, já estou de saco cheio da dança da pílula anticoncepcional. Injeções contraceptivas? Uma amiga minha menstruou um mês INTEIRO por conta de uma dessas, teve de suspender. A outra simplesmente entrou em MENOPAUSA PRECOCE, aos 28 anos de idade, e precisou fazer reposição hormonal para parar de envelhecer. Estou muito fora disso. Camisinha a gente usa, mas estoura de vez em quando. Se você nunca passou por isso, ou tem muita sorte ou uma vida sexual muito chata.

Tudo o que eu quero é o direito de parar de ficar me entupindo de Gynera até chegar na menopausa. Minha mãe tomou pílula até quase chegar nos 50 anos. Fodeu a saúde dela todinha. Eu tomo pílula há 13 anos e tenho certeza absoluta de que já botei no mundo a quantidade certa de filhotes de Lanika. Acho que com a vida de um ser humano não se brinca e não colocaria outra criança no mundo por capricho, porque um homem entrou na minha vida e pediu com jeitinho. Também sempre mantive a firme convicção que só teria os filhos que pudesse bancar $$$$$, independente de ter pai ou não.

Até aí beleza. O que me espanta é o fato de que, ao procurar pelo tema, ao invés de encontrar informações sobre como é o procedimento e onde fazê-lo, encontrar páginas e mais páginas falando contra a laqueadura de trompas, normalmente citando casos de mulheres de níveis de educação mais baixos que usaram a esterilização como método anticoncepcional. Não discordo que se procure ensinar métodos contraceptivos alternativos para mulheres mal-informadas. Agora me espanta que incentivem garotas de 18, 20 anos, de renda e escolaridade baixas, a colocar mais filhos no mundo ao invés de investir em planejamento familiar e em auxiliá-las a educar os filhos que já têm para que eles tenham oportunidades no mercado de trabalho ao invés de virar avião de traficante. Tá arrependida de ter ligado porque casou de novo? Ao invés de fazer drama, vá adotar uma criança! Desde quando amor de mãe se mede pela carga genética da criança???

Segundo a Lei 9.263/96, artigo 10, parágrafo 1 "é permitida a esterilização
voluntária nas seguintes situações:
        I- em homens e mulheres com capacidade civil plena e maiores de vinte e cinco anos de idade ou, pelo menos, com dois filhos vivos, desde que observado o prazo mínimo de sessenta dias entre a manifestação da vontade e o ato cirúrgico, período no qual será propiciado à pessoa interessada acesso a serviço de regulação da fecundidade, incluindo aconselhamento por equipe multidisciplinar, visando desencorajar a esterilização precoce;
"

A lei de 96 infelizmente não impediu que minha mãe e muitas outras mulheres tivessem que pagar por fora ou "arrumar um conhecido que desse um jeitinho" para poder fazer a laqueadura de trompas (nem sempre de forma saudável, diga-se de passagem). Regulamentada pela lei, com uma fila imensa de espera pelo SUS e provavelmente preços estranhos em hospitais conveniados a planos de saúde, a única pergunta que eu ainda não consegui responder é: onde fazer?